OPINIÃO - Por que não falamos sobre dinheiro?

Por Redacao PAN

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Você sabia que falar de dinheiro é considerado um dos maiores assuntos tabus do Brasil?

Quando eu pensava em empreender, projetava que os clientes de minha consultoria seriam pessoas jurídicas. Eu pensava desta forma por ter justamente passado 30 anos de minha vida cuidando das finanças das empresas.

Entretanto, minha visão mudou completamente quando recebi o convite para inaugurar uma coluna de finanças em um Blog. Então, para escrever de maneira assertiva, que despertasse interesse e fosse útil ao público, fui pesquisar os assuntos mais comentados pelas pessoas sobre dinheiro.

E foi aí que eu me deparei com o dado assustador que falar de dinheiro no Brasil é mais difícil do que falar sobre sexo, morte, religião e política. Ou seja, dinheiro é um dos maiores assuntos tabus do país, sendo que em algumas pesquisas, ele aparece em primeiro lugar.

Foto mostra uma moeda de R$ 1 em pé, apoiada em uma pilha de outras moedas de mesmo valor

Minha veia pesquisadora, aliada à minha curiosidade que vem de berço, me levou a pesquisar também os motivos que fazem com que o dinheiro seja considerado este bicho-papão...

É importante compreender que é justamente pelo fato de ser um assunto tabu que o dinheiro acaba virando um problema na vida da maioria das pessoas.

Conversar sobre dinheiro é delicado. Não há o hábito de falar a respeito na família, entre amigos ou entre os casais. 

Entretanto, casais se divorciam por causa de dinheiro que, atualmente representa o segundo maior motivo de divórcio no Brasil, sendo inclusive a maior motivação de brigas entre os casais que, contudo, ainda se divorciam mais por causa das traições.

As famílias brigam por causa de heranças, pessoas são assassinadas, outras cometem suicídio por causa de dívidas. Crimes bárbaros acontecem motivados por dinheiro e mesmo assim não falamos a respeito.

Nas rodas de conversas entre os amigos, quem tem muito dinheiro é considerado rico e tem vergonha disso. Da mesma forma, quem tem pouco dinheiro é visto como pobre e tem vergonha de ser pobre também.

Quem tem pouco dinheiro pensa que economia e finanças são assuntos da elite e só faz planejamento financeiro quem tem muito dinheiro. Além disso, não se identifica e tampouco vê possibilidade de seguir, por exemplo, umas das regras mais citadas em relação a planejamento financeiro que é destinar 20% do rendimento para investimentos.

De outro lado, quem tem mais dinheiro entende que não tem com que se preocupar e simplesmente vai vivendo de uma maneira descontrolada e desregrada sem se preocupar com o futuro.

Enfim, com as devidas exceções, não importa o gênero, a profissão, a religião ou a classe social: falar sobre dinheiro é assunto considerado proibitivo, causador de constrangimentos e desconfortos.

Depois de feitas estas constatações, cheguei à origem do tabu em relação ao dinheiro: as crenças limitantes são responsáveis pelo tabu que se criou em torno do dinheiro.

Desde a infância aprendemos que dinheiro é sujo, não dá em árvore, não traz felicidade e assim por diante.

Ao poder das crenças limitantes sobre o dinheiro, somam-se a ausência de educação financeira formal na escola. Esses elementos fazem com que o Brasil seja considerado o país dos analfabetos financeiros, pois o número de pessoas adultas com conhecimento de economia e finanças é considerado baixíssimo.

Foto mostra mulher com óculos e cabelos crespos usando camisa xadrez de cinza e preto escrevendo em um caderno. À frente dela, sobre uma mesa, há um laptop aberto. Existem livros sobre o móvel 

E isso ocorre independentemente do grau de instrução. Há mestres e doutores renomados, pessoas que são referências em suas áreas de atuação, mas que não possuem conhecimento sobre o assunto e muito menos domínio sobre suas finanças.

Através dos resultados das pesquisas, eu fui ligando os pontos e entendi que eu poderia também ajudar as pessoas (e não somente as empresas como inicialmente eu pensava) a melhorarem suas relações com o dinheiro, levando a elas, de uma forma simplificada e com linguagem acessível, a forma com que as empresas gerenciam seus recursos e, ainda, a consciência de quanto nossa relação com o dinheiro impacta em nossa qualidade de vida e o quanto nossas decisões de consumo são emocionais.

A partir disto, eu consegui traduzir minha missão de vida que é evoluir sempre, proporcionando evolução ao próximo também para o propósito de minha empresa, surgindo assim “desmistificar economia e finanças para pessoas e empresas”.

Desta forma, me proponho a falar de economia e finanças de maneira simples para que todos entendam. Sem “economês” ou “financês”. Se for imprescindível usar algum termo estrangeiro, coloco entre parênteses o significado em português.

Mesmo assim, é essencial saber que desfazer crenças e romper um tabu não é nada fácil. Verdadeiramente, eu defendo que quando começamos a falar “sobre” estamos decretando o início do fim de um tabu.

Então, a dica é: comece a falar de dinheiro na roda de amigos, com sua família, com seus filhos e principalmente, no seu casamento.

Acrescente o assunto economia e dinheiro no happy hour com os amigos. Fale sobre o aumento dos preços, inflação, taxa Selic. Troque ideias sobre o melhor tipo de investimento, sobre os preços em geral dos interesses em comum. 

Por exemplo: que você está poupando uma grana para as férias. Questione quem já foi ao mesmo lugar, os melhores e mais em conta passeios. Fale sobre a melhor forma de hospedagem. Sobre o programa de pontos do cartão de crédito. Sobre alternativas para economizar no dia a dia etc.

Há esposas que não sabem o rendimento dos maridos e vice-versa. Outros casais cuidam cada um de seu dinheiro, o que não é necessariamente errado, mas o fato de não possuir nenhum planejamento em comum esvazia o relacionamento. Falar sobre dinheiro entre os casais pode salvar muitos casamentos!

Se você está namorando e a relação está ficando séria, inclua a pauta financeira nos diálogos de casal. Qual o regime de comunhão de bens? Pretendem alugar ou comprar um imóvel? Como será a divisão das despesas? Quais são as despesas essenciais para cada um? Quais são os hobbies, os sonhos de vocês? Enfim, planejar o futuro financeiro juntos faz parte de um casamento feliz e bem-sucedido.

Foto mostra uma mulher de óculos sorrindo e com a mão direita nas costas de um menino, sentado ao lado dela, ambos em frente a uma mesa, onde há um celular e um laptop. Eles estão em uma cozinha

E, se você tem filhos, significa que você tem a chance de construir um futuro melhor! Fale sobre dinheiro com seus filhos desde pequenos, de forma natural. Transmita a eles leveza, segurança e tranquilidade. 

Diga a eles que você trabalha para conquistar algo e que para isso precisa do dinheiro. Dê a eles a visão de objetivos de curto, médio e longo prazos.

Não perpetue as crenças, repetindo a eles as que lhe foram passadas. Faça diferente. Transmita a seus filhos a ideia de que dinheiro é um meio e não um fim e que faz parte de nossa vida, independentemente de classe social.

Há exemplos de pessoas que têm um rendimento de R$ 2.000, mas que conseguem viver de forma harmoniosa com suas finanças, pois têm domínio sobre suas capacidades financeiras. Já outras que mensalmente recebem R$ 20.000,00 e gastam R$ 30.000,00, vivendo endividadas, angustiadas e tendo que consumir cada vez mais para sustentar os padrões sociais.

Por fim, lembre-se: “O dinheiro faz parte de nossa vida e não o contrário” e também que “você é o dono do seu dinheiro e não o contrário”.

UBUNTU 

Até o próximo artigo em que falaremos das crenças sobre o dinheiro...

Dirlene Silva.

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*Esse artigo é de autoria da colunista Dirlene Silva e não reflete necessariamente a opinião do Banco PAN.