OPINIÃO: Só precisamos de oportunidades!

Por Redacao PAN

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Ao ver a Rebecca Andrade fazendo história nesta Olimpíada, me emocionei muito. A história dela, assim como a minha, e de inúmeras pessoas negras ou pertencentes a grupos minorizados, só comprova que precisamos de oportunidades!

A Rebeca teve a vida transformada pelo esporte e eu pela EDUCAÇÃO!

Minha missão de vida é evoluir sempre, proporcionando evolução ao próximo também. Sou uma pessoa de propósito. Sempre começo pelo porquê. De forma que, ano passado, quando optei por empreender, sabia que necessitava iniciar minha empresa pelo propósito e foi assim que nasceu a missão “desmistificar economia e finanças para pessoas e empresas”. Foi através deste propósito que o Banco PAN me convidou para ser colunista.

Me identifico demais com propósito do banco, que declara ser “um banco que dá crédito e acesso à informação com tecnologia para você transformar desafios em conquistas”, o que é, em outras palavras, OPORTUNIDADE! E o PAN também busca traduzir o que é complicado e simplificar tanto os processos quanto as relações entre as pessoas, quebrando barreiras e burocracias para que todos se sintam mais confiantes. Ou seja, total alinhamento com meu propósito de “desmistificar economia e finanças”.

Honrosamente, cá estou. Mas, para chegar até aqui, assim como a Rebeca Andrade, eu precisei de uma oportunidade... E é sobre isto que eu falarei neste primeiro artigo.

Aos 6 anos de idade, a Rebeca entrou para a ginástica através de um projeto social. Foi com a mesma idade que eu entrei para a escola e, mesmo tendo sido alvo de preconceito, ter sido rechaçada, inclusive pela professora, minha paixão pelos estudos só aumentou.

Foto mostra a família de Dirlene Silva na infância da economista: uma irmã em pé, a mãe dela agachada com ela, criança, em frente, e outra irmã em pé, da esquerda para a direita

Passei minha infância inteirinha sendo chamada de “filha da empregada”. Até os 10 anos de idade vivi sem ter acesso a energia elétrica, água encanada ou banheiro. Posteriormente, na pré-adolescência, ganhei um novo rótulo: “filha de lixeira” - uma vez que minha mãe conquistou um trabalho de gari na prefeitura da cidade.

Nesta mesma época, fui contemplada com uma bolsa de estudos em uma das melhores escolas da cidade. Nesta fase, eu já tinha um gosto incomum para os adolescentes: política e economia.

Eu amava a escola, mas chegar até a sala de sala era um desafio, na verdade, um sofrimento diário, pois para isto eu precisava passar por um grupo de meninos reproduzindo sons de macaco. Eu simplesmente baixava a cabeça, rezava e chorava. Minha vontade era ter uma máquina de teletransporte como nos filmes de ficção científica.

Mesmo assim, nunca em momento algum eu pensei em deixar a escola. Meu desejo era apenas não ter que passar mais por aquela humilhação. Minha meta era parar de sofrer com aquela situação. E foi seguindo a orientação dos professores de aproveitar todas as oportunidades que a escola me oferecia que eu cheguei até a biblioteca.

Em uma de minhas tardes na biblioteca, me deparei com livros de psicologia (hoje em dia chamados de autoajuda). O primeiro livro do gênero que li foi o “Poder do Subconsciente” de Joseph Murphy. Este livro mudou minha vida, meu mundo! Li todos os livros deste autor que havia na biblioteca e muitos outros do gênero. Adotei Joseph Murphy como meu psicólogo (o chamo assim até hoje).

Foto mostra a colunista Dirlene Silva com sua família já na pré-adolescência

E foi assim que eu mudei minha postura. Ao passar pelo grupo de meninos, levantava a cabeça e os cumprimentava. Certa vez, ainda perguntei: “Por que vocês fazem sons de macaco? É porque o homem evoluiu do macaco?”. Enfim, uns começaram a rir dos outros e eles se dispersaram... Com o tempo, a graça acabou e eles não me importunaram mais.

Descobri que meu problema maior era não me reconhecer. De quebra, entendi que autoconhecimento é a mãe do conhecimento e autoaceitação salva! Assim, aos 15 anos me tornei PROTAGONISTA da minha vida!

Contudo, me reconhecer como mulher, negra e pobre em uma sociedade machista e racista, em um Estado onde grande parte da população tem origem alemã ou italiana, não impediu que eu fosse alvo de muitos outros atos preconceituosos. Entretanto, eu já estava blindada...

Logo, os risos e as piadas constantes quando eu decidi ser economista e executiva de empresas não me abalaram. O fato de eu não ter ingressado na Universidade Federal como eu esperava me abalou, mas não foi o suficiente para que eu desistisse de meu sonho.

Foto mostra a colunista Dirlene Silva vestida com toga azul em sua formatura, segurando o canudo com o diploma

Aliás, o fato de eu não ter ingressado na Universidade Federal me levou a refletir sobre as oportunidades... Eu já trabalhava em turno integral e à noite fazia cursinho pré-vestibular. Já meus colegas de cursinho, ou seja, meus concorrentes, estudavam pela manhã e pela tarde na escola e ainda à noite iam para o cursinho. Na época, pouco se falava em equidade, mas eu senti na pele a diferença entre igualdade e equidade.

Depois disto foram 10 anos na faculdade particular. Fazia 1, 2 e comemorava quando conseguia fazer 3 disciplinas! Reprovar não era uma opção para mim e por isto nunca reprovei.

Finalmente, o dia mais feliz da minha vida (até aquele momento) chegou e em 23/01/2004 foi minha formatura! Enfim, economista! Ser economista foi durante muitos anos o único sonho de minha vida. O objetivo que me movia. Até hoje, comemoro o dia 13 de agosto, Dia do Economista, como minha segunda data de aniversário.

Como se fosse uma recompensa por todas as adversidades vividas anteriormente, após a graduação, eu vivi o que chamo de 50 anos em 5.

Troquei duas vezes de trabalho, sendo sempre um com o dobro do salário do anterior, comprei meu primeiro carro, primeiro apartamento, casa na praia, fiz cursos de idiomas, intercâmbio em Buenos Aires, cursei 2 MBA’s e vários outros cursos, viajei muito e cheguei ao mestrado internacional, que me levou pela primeira vez à Europa.

Nunca sonhei antes em conhecer a França, mas logicamente estando lá foi natural a vontade de conhecer a cidade luz, a cidade mais visitada do mundo: Paris.

Foto mostra a colunista Dirlene Silva com casaco lilás e chapéu da mesma cor em frente à Torre Eiffel, em Paris

Embarquei no trem e, chegando a Paris, ao avistar a Torre Eiffel, a emoção foi indescritível, incontrolável... Revivi minha trajetória, toda a minha história e entendi o significado que tinha eu estar ali.

Significava a glória, a redenção: a “Filha da Lixeira” estava em Paris! Rezei, agradeci as oportunidades que tive na vida e principalmente, por ter tido a maturidade de aproveitá-las...

E, ao estar lá, eu provei a mim mesma e para a sociedade que, independentemente de onde viemos, podemos sim conquistar tudo o que queremos. Precisamos apenas de oportunidades!

Até o próximo artigo,
Dirlene Silva.

LinkedIn - Dirlene Silva

Instagram - @dirlene.economista

 

*Esse artigo é de autoria da colunista Dirlene Silva e não reflete necessariamente a opinião do Banco PAN.